Alguns fatos agradáveis, presenciados ao longo do meu exercício profissional, povoam minha memória de tal forma que, nem mesmo com o passar do tempo, suas imagens são apagadas. Em especial, acontecimentos que, sem darmos conta, se transformariam em fatos históricos.
O presente trabalho é uma reelaboração do primeiro relato enviado à Fundação Cultural Calmon Barreto de Araxá, em 25 de agosto de 2000. Em novo formato, foram acrescentados outros elementos ligados à construção do Catetinho, a primeira obra edificada em Brasília, no prazo exíguo de dez dias, em outubro de 1956. A execução dessa tarefa contou com a participação direta de um grupo de pioneiros araxaenses. Tal fato vem passando despercebido por uma grande parcela da nossa comunidade.
A maioria dos trabalhadores pertencia ao quadro de funcionários da primeira empresa de mineração instalada em Araxá, denominada Fertilizantes Minas Gerais S.A. (FERTISA). Eram prestadores de serviços nas obras de construção civil da Fábrica de Fosfato Natural de Araxá. Essa fábrica foi implantada pelo então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ele lançou sua pedra fundamental no dia 10 de outubro de 1953.
Conforme foi relatado no trabalho anterior, num primeiro instante, o assunto pode causar surpresa para muitas pessoas, ou até mesmo certa estranheza, levando à seguinte indagação: por que um fato como esse, acontecido há mais de meio século, somente agora está sendo abordado pelo autor?
Como resposta diria que, mesmo não sendo um daqueles pioneiros que seguiram para Brasília, naquela época, tive a feliz oportunidade de pertencer ao quadro de funcionários da FERTISA, e exercia as funções de Auxiliar de Escritório. Dessa forma, recebi as incumbências de ajudar nos preparativos da viagem por ocasião da partida dos funcionários para Brasília, bem como datilografar as relações do pessoal, das máquinas e dos materiais cedidos como empréstimo pela FERTISA. Esses documentos serviriam para controle e acompanhamento da prestação de contas ao final da obra.
Depois de muitos anos, por diversas vezes, alguns funcionários que participaram da obra vieram me solicitar a elaboração de um documentário onde fossem narrados os detalhes de como essas ações se desdobraram. Os mesmos funcionários manifestaram, ainda, o desejo de ver a sua divulgação na imprensa local para conhecimento da nossa comunidade.
Daí a resposta da pressuposta indagação.
Portanto, mesmo depois de passado tanto tempo, resolvi organizar o presente trabalho com a finalidade de contribuir para o resgate de um fato que, pelas suas circunstâncias, ligou Araxá definitivamente à história de Brasília. Espero, também, que esse relato possa servir como uma homenagem àqueles araxaenses que participaram diretamente desse acontecimento histórico, embora a sua maioria já tenha falecido, infelizmente. Na oportunidade, reverencio suas memórias.
Considerando o episódio uma façanha e levando-se em conta a época e as condições em que o mesmo aconteceu, acredito que os nomes desses simples trabalhadores e demais profissionais merecem ser perpetuados, figurando na honrosa galeria dos “Primeiros Pioneiros da Construção de Brasília”, mesmo que de forma simbólica.
De tal modo que, se assim acontecer, podem estar certos os leitores de que a medida estará contribuindo para que os nomes dessas pessoas mantidas no anonimato possam ser lembrados pelas futuras gerações por terem participado da construção da primeira “casa” de Brasília, o Catetinho, posteriormente transformado em museu e ponto turístico da nova capital do Brasil.
Por extensão, estará prestando um tributo aos familiares e descendentes – cuja maioria reside em Araxá – os quais, certamente, sentir-se-ão bastante honrados pelo reconhecimento. Como ex-funcionário da FERTISA, posso dizer que me dou por satisfeito se o presente trabalho puder servir como subsídio para que isso aconteça.
Araxá, em 20 de junho de 2008.
Ahilton Guimarães
ahiltonguimaraes@hotmail.com